sábado, 9 de agosto de 2008

Rochas

Moveu o braço para a esquerda e apontou duas excrecências turquesa, como dois chapéus pousados na água. Que rochas feias, disse, parecem almofadas. Não as vejo, disse a mulher. Além, um pouco mais paras a esquerda, mesmo em frente ao meu dedo, estás a vê-las?, disse Marcel. Passou o braço direito pelos ombros da mulher, com a mão estendida para a frente. Mesmo na direcção do meu dedo, repetiu.
O revisor sentara-se num banco junto do parapeito, tinha terminado a sua volta e estava a observar os movimentros deles. Certamente intuiu o sentido da conversa, porque se aproximou sorrindo e falou para a mulher com ar divertido. Ela ouviu com atenção e depois exclamou: nãão! e levou a mão à boca com ar travesso e infantil como que a reprimir uma risada. O que é que está a dizer?, perguntou o homem com o ar ligeiramente parvo de quem não está a seguir a conversa. A mulher dirigiu ao revisor um olhar cúmplice. Riam-lhe os olhos e era muito bonita. Diz que não são rochas, disse, mantendo propositadamente em suspenso o que acabara de saber. O homem olhou-a com ar interrogativo e talvez um pouco aborrecido. São pequenas baleias azuis que passeiam nos Açores, exclamou ela, foi exactamenteo que ele disse. E finalmente libertou a gargalhada reprimida, uma pequena gargalhada breve e sonora.

Mulher de Porto Pim
Antonio Tabucchi
A Ler por aí... nos Açores

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