segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ler por aí... ao ouvido: rescaldo do baile de slows

Duas cadeiras vermelhas, colocadas lado a lado mas viradas uma para a outra, como as  antigas conversadeiras. Uma mesa ao lado, com vários livros, marcados com post-its coloridos.

As cadeiras estão colocadas no quintal de um lavadouro público, onde ainda se lava e estende roupa, e se conversa. Lavam-se e estendem-se intimidades.

Dou início às minhas manobras de sedução com um senhor de bastante idade. Convido-o a ocupar a cadeira junto à mesa, e sento-me na outra. Peço-lhe que se aproxime um pouco mais de mim. Quando os nossos corpos se tocam em vários pontos, vejo a sua expressão deliciada.

Peço-lhe que escolha um livro, e abro-o numa das páginas assinaladas. Enquanto lhe leio ao ouvido, percebo que fecha os olhos, e me toca no braço com uma das mãos. No fim, abre os olhos, a sorrir, e a sua mão mantém-se no meu braço. Trocamos mais algumas palavras, conta-me da sua paixão por bethoven e rachmaninov, enquanto aguenta o seu olhar no meu e a sua mão no meu braço. A sedução foi mútua. Adorei estar com aquele senhor e partilhar com ele palavras de amor. Ele renasceu, voltou a ser sedutor, reviveu velhas sensações, que talvez não sentisse há anos.

A seguir aproxima-se uma mulher. Peço-lhe que escolha um livro e abro-o numa das páginas marcadas. Leio-lhe ao ouvido um pequeno texto. Com os olhos fechados, pede que continue, e acabo por lhe ler quatro textos. A seguir, começa a recitar um poema em inglês. É meu, diz ela. Fico maravilhada.

Vem um jovem adolescente à cadeira vermelha, e leio-lhe ao ouvido um texto ousado muito curto, que o deixa embaraçado.

Uma mulher senta-se a seguir na cadeira vermelha, mas numa posição diferente. Ela senta-se de lado, encostada ao espaldar da minha cadeira, e falo para o ouvido dela enquanto estamos ambas voltadas na mesma direcção. Percebo que há todo um kama sutra para os sussuros.

A alguns, convidei no quintal para virem comigo, para lhes dizer "umas coisas" ao ouvido, e pedia-lhes que me seguissem até às cadeiras vermelhas. Outros aproximaram-se de mim no quintal, e perguntaram-me ao ouvido se lhes queria sussurrar.

A alguns, li textos escolhidos pelo acaso, a outros, textos escolhidos por mim, especialmente para a pessoa que tinha perante mim. Li confissões de amores para ser, lembranças de amores antigos, li dores de amores perdidos, e convites, vários convites que fazem sonhar.

Senti o outro muito próximo, senti o toque e o calor.  Criei intimidade, fiz sonhar, dei e recebi. Com cada um dos meus pares, criei um momento e uma intimidade diferente, em que cada um de nós se sentiu único e especial.

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