sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Raia de Espanha.

Raia de Espanha. Serranias azuis e violentas que se amaciam subitamente em olivais, campinas de trigo, planaltos de terra vermelha. Caminhos de estevas, de fragas, onde o perigo sai dos barrancos e dos muros, ou caminhos melancolicamente guarnecidos de plátanos, abrindo clareiras na mata de pinheiros mansos, de um verde claro e opulento, onde se escondem os celeiros das campanhas agrícolas. Mas antes de os ganhões desempregados e os contrabandistas de profissão chegarem a essas terras têm de atravessar os baldios do seu país. Para cá das faldas desabrigadas, com o rio Erges esmagado entre muralhas de granito, o casario nasce dos moinhos afogados nas enxurradas, sobe penosamente as margens das ribeiras, agacha-se à sombra das rochas e espraia-se por fim em aldeolas mesquinhas. Depois vem a planície, triste como um descampado, devassada pelo vento de Espanha, que satura o ar de poeira e solidão. Planície nua, crestada pelo sol, que amadura as infindáveis searas de trigo.
São quilómetros tortuosos, noites fechadas de névoa, olhos e ouvidos varando as sombras, e o rumor alcoviteiro do vento que desce das malhadas da serra. Um homem começa a desafogar o peito quando o amanhecer anuncia os povoados alegres de Espanha. Valverde del Fresno fica numa cova. A aldeia ressalta inesperadamente do azul liso das montanhas; só a descobre quem se afunda nas vereias que rodeiam a subida da serra.

Fernando Namora
A Noite e a Madrugada
A Ler por aí... na raia beirã

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