terça-feira, 11 de março de 2008

Sol e poeira

Já eram onze e durante aquelas cinco horas só tinham visto cabeços indolentes de colinas chamejando de amarelo ao sol. O trote nos percursos planos depressa alternara com as longas e lentas arrancadas nas subidas, e com o passo pridente nas descidas; passo e trote, aliás, diluídos igualmente no fluxo contínuo dos guizos, que já só se ouvia como manifestação sonora do cenário requeimado. Tinham atravessado aldeias embrutecidas, pintadas de azul-pálido; tinham transposto pontes de uma estranha magnificênciasobre riachos totalmente secos, tinham costeado escarpas desesperadas que nem os sorgos e as giestas conseguiam consolar. Nem uma árvore, nem uma gota de água: sol e poeira. No interior das carruagens, fechadas precisamente devido a esse sol e a essa poeira, a temperatura devia ter atingido os cinquenta graus.

O Leopardo
G. Tomasi di Lampedusa
A Ler por aí... na Sicília, Itália

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